• Daniel Conde

Nem sempre fica pior

O mundo do corredor amador divide-se em dois hemisférios bem distintos: a corrida de rua (asfalto), e o trail (terra batida, monte, ribeiras, e mais o que vier). E ao contrário do que quem veja de fora, ou que ainda esteja a dar os seus primeiros passos na corrida, possa pensar, correr não é correr.


A corrida de rua caracteriza-se pela manutenção de um ritmo constante, um pace médio que não tenha variações significativas. Queres fazer uma prova de 10K em 50 minutos? Tens de fazer a corrida a um pace constante de 5 minutos por km. E não há como dourar aqui a pílula; ou é isto, ou não é isto. Até porque corrida de estrada não pode (não deve) ter um D+ (desnível positivo acumulado) significativo - mais de 100 metros, seja numa prova de 10K, seja numa Meia Maratona, e já estão a abusar dos clientes.


Mas o reino do Trail amigo, ui, aí a conversa fia mais fino. As regras são quase tão subvertidas como se de repente deixasse de haver gravidade, e toda a tua percepção do mundo virasse do avesso. Pace médio? Deves estar a gozar. Altimetrias para 100 m de D+? Mas o que é que andas a pôr no Cerelac da manhã, amigo? Abastecimentos a cada 5 km só de água? Vá, vamo-nos sentar e ter uma conversa...


Não vou falar neste artigo sobre o que é o reino do Trail em detalhe. Aqui gostaria de aprofundar apenas um aspecto em concreto deste desafio que de ano para ano atrai cada vez mais atletas, num despontar de novas provas por todo o país: aquele momento em que as forças falham a meio da prova.


Trail Corrida Solidária Continental Vila Real 2022
Trail Corrida Solidária Continental, 25K (Junho 2022) - aqui a 2 km da meta, com cãibras nos joelhos...

Um passo mal dado, e aí vem um entorse. Um esforço mal calculado, e estás sem forças com um camião de quilómetros ainda pela frente. Fome. Sede. Calor. Cãibras (nem me façam começar a falar sobre as malditas das cãibras...). A quantidade e diversidade de pequenos pormenores que se podem transformar num pontapé nos países baixos dado por um lutador de MMA no meio de um trail são suficientes para tornar cada prova numa verdadeira aventura.


Mas nem sempre fica pior. A sério. Ouvi esta frase num vídeo de um canal sobre corrida - o seu a seu dono - há uns tempos atrás, e ficou-me para sempre na cabeça. Até porque eu próprio já experimentei esse dilema. Porque o nosso corpo - e sobretudo a nossa mente - funciona de forma misteriosa, às vezes é depois de uma quase desistência que chega a força para continuar. Ou depois de uma subida impiedosa, vêm kms de agradável descida. Ou porque bastou aquele copo de coca cola num abastecimento, bebida com toda a parcimónia que couber em 5 minutos a descansar, foram suficientes para te trazer literalmente de volta à corrida.


Vais ter dias de merda; vais. Vais eventualmente chegar ao dia em que tens de desistir; vais. Mas lembra-te: quando te cair o desânimo, a dor, a exaustão, o pensamento puro e duro de "mas que porra vim eu aqui fazer?!", nem sempre fica pior. Caminha um pouco, senta-te no chão, agarra-te a esse cubo de marmelada e a esse copo de água como se tivessem descido do Éden de propósito e entregues directamente por Deus Nosso Senhor. Ainda vem gente atrás de ti, não estás sozinho. E a menos que estejas a ser patrocinado, deves zero obrigações a quem quer que seja a não ser a ti próprio, sobre terminares a prova ou o tempo e classificação que obténs.


Enjoy the fucking moment; vemo-nos na meta.

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