top of page

Prestação vencida


estação da régua
Estação da Régua - apontada para renovação integral, afectando espaços também da Linha do Corgo.

Bragança teve comboio 50 anos depois de Lisboa.

Bragança teve auto-estrada 50 anos depois de Lisboa.

Bragança terá comboios eléctricos MAIS DE 100 ANOS depois de Lisboa (a Linha de Cascais foi electrificada em 1926, portanto é fazer as contas).


A consignação da obra de electrificação do troço de 43 km entre as estações do Marco de Canaveses e da Régua ocorreu dia 16 de Setembro, na cidade trasmontana do Peso da Régua, com a presença do Ministro das Infraestruturas. Data prevista de entrada em funcionamento, 2028.


Contudo, esta era uma obra incluída no infame pacote de investimentos "Ferrovia 2020", com data de conclusão prevista para 2019. Em suma, se tudo correr dentro do previsto, Trás-os-Montes terá o seu primeiro comboio eléctrico a funcionar com NOVE anos de atraso sobre o inicialmente estipulado, e CENTO E DOIS anos depois da capital ter tido o seu primeiro comboio eléctrico (o vapor acabou em Trás-os-Montes na década de 1980). E não é como se não tivesse havido orçamento para tal: apenas que a verba foi desviada para obras na Linha do Oeste, e mesmo daí foi depois desviada para parte incerta. Prioridades!...


Esta não é a única derrapagem deste projecto: o que inicialmente custaria 46 milhões de euros, custa agora 118 milhões - uma diferença de 72 milhões, ou seja, um aumento de 156%. Aqui há que raciocinar se estamos a falar do mesmo volume de trabalhos entre ambos os valores - já que para além da estrita introdução da catenária existirá ainda o rebaixamento da plataforma em obras de arte, beneficiação de plataformas (o que tem sido um manifesto desastre nos últimos anos, com passageiros a terem de sair fora das plataformas) e de edifícios, e claro, modernização da sinalização e sistemas de comunicação - o que em sendo verdade representa uma diferença de valores injustificável. Caso contrário, fica a nota de que a avaliação feita para o Ferrovia 2020 para esta obra foi altamente errónea. Nenhum dos cenários é, convenhamos, lisonjeiro.


Por fim, o prazo de execução das obras: três anos. Existe, em qualquer projecto, um conjunto de tarefas que ora são quase independentes, ora são interdependentes, havendo tarefas com folgas de execução, e outras que formam uma corrrente chamada de "caminho crítico", onde um atraso numa tarefa implicará igual atraso em todo o projecto. Do meu ponto de vista, custa-me acreditar que o caminho crítico deste projecto seja de 3 anos: a renovação de layouts das estações não depende directamente da instalação da catenária, e que também não depende directamente da instalação de sinalização electrónica.


Como ponto de comparação, mesmo que num terreno de diferente morfologia e com um volume de trabalhos diferente, não deixa de parecer desconcertante que em 1957 (há 68 anos) se tenha conseguido realizar em 1 ano a electrificação dos 70 km de troço duplo da Linha do Norte entre o Carregado e o Entroncamento...


Subsiste ainda um conjunto de outras questões derivadas desta obra:


  1. Haverá interrupção do tráfego ferroviário, total ou parcialmente, neste período de tempo?

  2. A VMA (Velocidade Máxima Admissível) manter-se-á inalterada?

  3. Há material circulante eléctrico disponível para uma substituição dos horários realizados actualmente entre o Porto e a Régua por material motor diesel?

  4. Não faz sentido falar-se em Suburbanos do Porto à Régua (> 100 km), como já li numa reportagem; oportunidade para a reintrodução (pela terceira vez) de Intercidades?

  5. Continuará a haver serviços Inter Regionais Porto <> Pocinho, sem a necessidade de transbordos na Régua (experiência péssima brevemente introduzida nos anos 2000)?

  6. A "reabilitação e adaptação" dos EP (Edifício de Passageiros) deste troço implicará a liminar demolição de alguns deles, como esteve para acontecer por exemplo no ano passado com o EP de Monte de Lobos, na renovação da Linha da Beira Alta - ou como aconteceu aos EP de Vesúvio e Cotas, na história recente da Linha do Douro?


Posso ler os ppt e as mensagens de circunstância que Governo e IP quiserem, as vezes que quiserem: afirmarem, como o fazem sobre estas obras nos seus sites oficiais, que a Linha do Douro é uma "prioridade" é uma falta de respeito intelectual indesmentível, tanto de uma entidade, como da outra - especialmente do próprio ministro, que já este ano afirmava que a Linha do Douro não era uma prioridade para o Governo, mas igualmente da IP, cujo desleixo penalizou a campanha deste ano do Comboio Histórico do Douro, por suposta falta de manutenção de obras de arte metálicas.

Comentários


©2024 Reino Maravilhoso

bottom of page