Sobre a "Resiliência" dos Territórios
- Daniel Conde
- há 10 minutos
- 3 min de leitura

Tem-me ocorrido nos últimos dias esta palavra nos pensamentos, uma e outra vez: Resiliência. Um termo que, após a Pandemia do COVID, se tornou comum ouvir, sobretudo através do pacote financeiro criado pela União Europeia, denominado "Programa de Recuperação e Resiliência".
A Resiliência de um Território será, então a sua capacidade para resistir a eventos que desafiem a sua estabilidade e crescimento - penso eu, na minha cada vez menor inocência...
Portugal continua debaixo de um cenário meteorológico desafiante, para dizer o mínimo. Mudei-me para Vila Real em 2016, e não me lembro do último ano em que vi tanta nevada seguida no Alvão e no Marão, já para não falar na incessante chuva que ainda não deu tréguas.
Multiplicam-se os casos de inundações, e aluimentos de terras que deixam estradas condicionadas ou cortadas. E duas localidades em particular chamaram-me imediatamente a atenção: Alvações do Corgo, e Vila Pouca de Aguiar.
A estrada de acesso entre Alvações do Corgo (margem esquerda do rio Corgo) e a sede de concelho em Santa Marta de Penaguião (margem direita) está cortada, devido ao aluimento de terras mesmo à entrada da Passagem de Nível da estação. Outro acesso a esta localidade viu uma ponte ser também seriamente afectada.
Já em Vila Pouca de Aguiar, quem habite aqui na zona circundante já se habituou a ouvir os relatos de situações difíceis - ou chegando mesmo aos vários acidentes ultimamente registados - na A24, em pontos como a travessia da Serra da Falperra (entre Fortunho e Vila Pouca e Aguiar), ou na subida para o início da A7 (entre Vila Pouca de Aguiar e Pedras Salgadas), devido às formações de gelo e/ou nevoeiro, e à queda de neve.


Sabem que outra via liga todas estas localidades, e está displicentemente entregue ao fait divers das ciclovias e pseudo-Caminhos de Santiago? A Linha do Corgo.
Não vou ser hipócrita: claro que uma via férrea não é imune às intempéries, só por ser uma via férrea - que o digam a Linha do Norte e a Linha do Oeste, por exemplo.
Mas lembro-me de há poucos anos atrás a situação de seca severa na albufeira da Aguieira (rio Mondego) ser mitigada com o auxílio de comboios cisterna, a despejar água a partir da Linha da Beira Alta.
E, agora, comboios especiais da CP e da Medway (empresa privada de transporte ferroviário de mercadorias) têm levado auxílio (víveres) ao concelho do Cartaxo, e até sacos de areia para protecção de diques no concelho de Salvaterra de Magos, imagine-se, pelo Ramal do Setil - um tal ramal sem serviço de passageiros (because reasons) há largos anos, e que liga a Linha do Norte (Setil) à Linha do Alentejo (Vendas Novas).
A ferrovia a ser estratégica, não porque magicamente se tornou estratégica da noite para o dia, mas porque quem decide e coordena aquele território decidiu fazer de um ramal, injustamente circunscrito apenas ao transporte de mercadorias, numa linha de vida.
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Aqui na Linha do Corgo, e juntando:
a) As notícias recentes da indignação das gentes das Pedras Salgadas, remetidas a um mero abrigo urbano de autocarro com uma estação INTEIRA logo atrás que lhes foi vedada;
b) As gentes de Vila Pouca de Aguiar que apontam o dedo a uma central de camionagem num estado de degradação flagrante quando têm uma estação INTEIRA transformado em universidade sénior (nada contra a iniciativa, mas creio que para bom entendedor meia palavra basta);
Temos uma Alvações do Corgo com acessos fortemente condicionados, e a aventura que é amiúde ultrapassar os 1000 m de altitude da Falperra com nevoeiro, gelo, ou neve.


Sob estas condições, continuar a empurrar a Linha do Corgo para estultices como ciclovias, enquanto se apregoa apaixonadamente "Resiliência" - e porque não também "Coesão Territorial" - é, no mais suave eufemismo possível, uma piada de mau gosto.
Este território não está "Coeso", este território não está "Resiliente"; quem continuar a achar que não precisamos da reposição urgente da ferrovia na nossa Região, só está a enterrar a cabeça na areia - e quem o faça assumindo ao mesmo tempo cargos de decisão/governação, está a agir como uma verdadeira força de bloqueio.







