Comunicado - Projecto de Resolução da CDU sobre o Plano de Imobilidade do Vale do Tua
- Daniel Conde

- há 12 minutos
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Saúdo a iniciativa da CDU de apresentar no Parlamento um Projecto de Resolução a respeito da infindável novela do Plano de Imobilidade do Vale do Tua (PIVT).
Mesmo não tendo tido ainda acesso ao documento, e reportando-me apenas à reportagem avançada pela Rádio Terra Quente, é imperioso sublinhar sobre este tema os seguintes factos:
O total falhanço da farsa que sempre foi o PIVT não se deve a uma questão ideológica de Esquerda vs Direita, Socialismo vs Liberalismo. Deve-se a um ESTADO que quis, custasse o que custasse e doesse a quem doesse, desresponsabilizar-se por completo da gestão de uma infraestrutura e de um serviço que são PÚBLICOS;
Não há UM argumento válido que justifique porque é que a Linha do Tua foi desvinculada da Rede Ferroviária Nacional (RFN), retirando do Estado o ónus da manutenção da infra e super estruturas da via – esta sim a principal razão do falhanço mais que adivinhável desta farsa, que mais não foi que um greenwashing da EDP para fazer aprovar a construção da putativa barragem do Tua.
Aliás, o argumento de que esta desvinculação era necessária para que um operador privado pudesse operar é FALSA, pois já desde 1999 a Fertagus, uma empresa privada, opera no troço denominado Eixo Norte-Sul, fazendo este parte da RFN, para além das operadoras privadas de transporte ferroviário de mercadorias que nela transitam, como uma Medway ou uma Takargo.
No Verão passado, o Ministério Público abriu um Inquérito-Crime ao PIVT, graças a uma exposição que remeti ao Procurador-Geral da República, com um cronograma completo dos acontecimentos e entidades envolvidas nesta farsa. Poucos meses depois, este Inquérito-Crime foi liminarmente arquivado, displicentemente acusando-me de ser um mero “inconformado”, não tendo apresentado nem datas nem intervenientes – o que é falso, e muito me espanta que um órgão a que associamos um meticuloso processo de investigação não se ter dado ao trabalho de investigar factos que são do domínio público;
A CP – Comboios de Portugal, entidade envolvida no PIVT pela sua associação à operadora Metropolitano Ligeiro de Mirandela (MLM), demonstrou já cabalmente a sua disponibilidade em reassumir a operação comercial da Linha do Tua, algo que entregara à MLM em Outubro de 2001. Única questão obrigatória para que o pudesse fazer: que a Infraestruturas de Portugal (IP) reintroduzisse a Linha do Tua na RFN, para que esta pudesse assim prestar um serviço de interesse público.
Não só a IP não o fez, como teve o real beneplácito do Ministério das Infraestruturas, que ao invés de tutelar como lhe compete a IP (cujo capital é detido a 100% pelo Estado Português), parece operar de forma inversa, e deixar-se tutelar pelos mandos e desmandos de um organismo que tem apresentado incompetência sobre incompetência nas obras ferroviárias ao seu encargo.
Foram já gastos DEZASSEIS MILHÕES de euros no PIVT, em obras sobretudo na infraestrutura da via, como reforço da plataforma da via nos locais onde a albufeira da barragem ameaçava a sua estabilidade, e… mais nada.
Sublinho que a Velocidade de Projecto – ou seja, a Velocidade Máxima Admissível (VMA) – da Linha do Tua é, desde a sua construção no século XIX, de 50 km/h, mas que desde a década de 1980 foi diminuída para 45 km/h por questões de manutenção da via, ATÉ HOJE. Pior, segundo uma análise feita ao Perfil Longitudinal da Via, foi possível concluir que a VMA entre o Cachão e Mirandela seria na verdade de 60 km/h, e que daqui para Sul existe uma quantidade tão diminuta como por vezes apenas uma curva entre cada estação a necessitar de correcção para que a VMA em todo o trajecto pudesse ser de 60 km/h.
A diferença? Uma viagem directa entre a Brunheda e Mirandela demorar, não 43 minutos, mas 32 minutos (11 minutos mais rápido, num troço de apenas 32 km). NUNCA foi explicado neste processo trágico-cómico se a super estrutura da via foi preparada para, no mínimo dos mínimos, a reposição da velocidade de projecto de 50 km/h!
Em 2021, no seguimento de uma pergunta informal que recebi de Mário Ferreira, subconcessionário do PIVT, sobre a disponibilidade de material circulante para a Linha do Tua, encontrei de facto carruagens de 1ª e 2ª Classes dos caminhos de ferro suíços (uma das melhores redes de Via Estreita do mundo) prontas a vender. Ao notificar tanto a Douro Azul, como a Agência de pseudo-Desenvolvimento Regional do Vale do Tua, NENHUMA das entidades quis saber do caso.
Actualmente, a super estrutura da via já se encontra coberta de mato (ninguém se preocupou sequer com a anual deservagem da via), com travessas já inutilizadas, e as duas últimas automotoras do MLM encontram-se nas Oficinas de Carvalhais, onde junto com o material do comboio-socorro da Linha do Tua estão a ser SISTEMATICAMENTE VANDALIZADAS.
A tudo isto, o que os sucessivos Governos têm dito, e agora o próprio Ministério Público, é que tudo está bem, que estão à espera (?!) de serem resolvidos pormenores técnicos (?!), e que ninguém é culpado por Património Público, que serviu a Região entre 1887 e 2018, estar a ser destruído sem apelo nem agravo.
O PIVT tem solução, e esta é muito simples:
1. Ser liminarmente anulado, e retirado da alçada de uma ADRVT, que se mostrou completamente incompetente e desinteressada na sua resolução, deixando-lhe projectos mais ao seu gosto, como caminhadas e… caminhadas, essencialmente;
2. A Linha do Tua ser integralmente reintroduzida na RFN (e sim, desde o Tua a Bragança), entregando a manutenção da infra e super estruturas a quem tem competência, orçamento, e OBRIGAÇÃO de o fazer, que é a IP;
3. Obrigar a que seja reposta, no mínimo dos mínimos, a velocidade de projecto de 50 km/h em toda a extensão, e de 60 km/h entre o Cachão e Mirandela, onde o raio das curvas já o permite;
4. Permitir que a CP volte a assumir a exploração comercial da Linha do Tua, reforçando a frota actual (existe material circulante de bitola métrica em todo o mundo, não havendo falta de material em segunda mão à venda constantemente), e definindo os seus horários desta vez em estrita união com as autarquias locais, de modo a impedir que se repitam horários absurdos que não serviam a procura, e só oneravam a operação comercial.
Espero que os demais Grupos Parlamentares não só apoiem esta iniciativa, como apresentem também as suas. O único, repito, ÚNICO problema para a resolução desta malparida farsa, não é técnico coisíssima nenhuma: trata-se apenas de um caso de insubordinação da IP em não reintroduzir a Linha do Tua na RFN, prejudicando não só outra empresa do Estado – a CP – como os interesses dos próprios cidadãos.
Daniel Conde
Via Estreita - https://www.facebook.com/viaestreita
Vila Real, 9 de Janeiro de 2026











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